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Sincretismo e razões das diversas linhas de Umbanda

 

Uma consideração sobre sincretismo e razões das diversas linhas de Umbanda :

Sou médium de uma casa da Linha de Mirim, peço sua atenção para o que considero ser uma visão mais acertada do que seja Umbanda e do movimento umbandista através do tempo.

A Umbanda não surge linearmente no tempo aparecida de supetão com o advento do C7E, ela se dá no tempo desde muito longe na história até os nossos dias. Ela tem por principal característica se moldar à cultura dominante onde se manifeste e utiliza diferentes formas de mediunidade e tipos de trabalho além de diferentes linhas de entidades, estas entidades muitas vezes não são exatamente o que pensamos delas mas assumem às características daquilo que permita um melhor desenvolvimento dos trabalhos de seus médiuns e sua capacidade de entender e evoluir em suas vidas de forma plena.

Sendo assim veremos o surgimento várias manifestações de cultos vistos pela tradição judaico-cristã como necromantes, desde os meados do século XIX surgem em todas as Américas, porém mais fortemente no Brasil e na América Central, manifestações religiosas aculturadas de forte influência dos escravos negros e das populações indígenas nativas, aqui no Brasil sincretizou-se muito dos cultos católicos e posteriormente das influências do Kardecismo, nestes primeiros instantes não se dizia ser Umbanda.

Posteriormente C7E postulou sua forma de trabalho sobre o que era acessível e compreensível a Zélio, fortes traços de espiritualidade negra e cristã, já Benjamim que vinha de uma família de origem francesa e kardecista desde suas origens, dá a percepção à Benjamim de fraternidade, seriedade e disciplina muito prezados pelos kardecistas, o Caboclo Mirim se aproveita disto para erguer sua linha em bases muito diferentes dos cultos africanos, a valorização da magia mental e quase total abandono de práticas da magia natural, e nisto a total negação das práticas de sacrifício cerimonial, o corte ou imolação de animais.

Os primeiros que se apresentaram como umbandistas e o que se conhecia como Umbanda até meados da década de 30 não apresentava ritos de prevalência da cultura negra, desta apropriou-se do nome dos Orixás e o entendimento da importância das forças da natureza como fundamento de toda uma nova visão de religiosidade.

Benjamim não desconhecia as entidades chamadas exús, pomba-giras, pelintras e malandros, utilizou sempre destas entidades para seus trabalhos, mas elas nunca tiveram protagonismo ou sequer foram nomeadas em qq momento, muito embora muitos dos médiuns da TEM e do Primado desde sempre tenham secretamente trabalhado com estas entidades e aculturado linhas em trabalhos que nunca foram reconhecidos como pertencentes à Escola da Vida, é na TEM que surgem os termos "Povo de Umbanda" e seu contraponto "Povo de Rua", como uma das mais fundamentais diferenças entre a linha de Mirim e os demais.

Zélio e Benjamim não se afastaram das origens do culto Umbandista aculturando conceitos, eles postularam novos fazeres à luz do que lhes foi ditado pelo C7E e pelo Caboclo Mirim que naquele momento eram algo totalmente novo e diferente de tudo o que existia, e mesmo assim se houvesse a consideração de estarem se afastando de suas origens ele estariam se afastando não dos ritos de matriz aricanas, mas sim do kardecismo ...

Em minha vivência eu compreendi que a Umbanda não segue uma linearidade de manifestação, C7E não seguiu os caminhos dos cultos Egumguns de culto ritual aos antepassados que nomearam pretos-velhos em meados do século XIX ou os cultos indígenas dos caboclos, nem o Caboclo Mirim seguiu as linhas de Kardec ou de Zélio quando após se manifestar pela primeira vez em 1920 na cabeça de Benjamim o encaminha ao Centro Nossa Senhora da Piedade em Neves para desenvolvimento mediúnico ou mesmo na fundação de sua casa, a TEM - Tenda Espírita Mirim em 1924.

Tancredo postulou sua Umbanda em bases muito mais centradas nos cultos e rituais africanistas e do Candomblé mas possuía características muito próprias e que o distanciavam de tudo o que antes havia, Matta e Silva incorpora elementos vindos do esoterismo e uma forma mais holística de entendimento da espiritualidade, cada um deles acrescentou novos fazeres e entendimento e foram contra muito do que outro grupos faziam e acreditavam, isto porquê não existe uma única Umbanda, a Umbanda é muito mais um movimento religioso do que uma unidade.

Vejo a Umbanda como sendo um prédio muito alto e largo cheio de janelas em meio à uma paisagem que muda conforme o tempo e se apresenta diferente conforme se direciona a atenção, de um lado as altas montanhas, de outro as praias e o mar imenso, de outro as matas e os rios, de outra os grandes desertos, diferentes povos habitam os cômodos e ao ver pelas janelas tem diferentes vislumbres da realidade, todos estão certos, todos trabalham para um objetivo maior.

Embora nós da linha de Mirim não façamos uso de rituais como corte, amacís, ebós ou quartinha, isto não faz outros estarem errados e não nos cabe um olhar de superioridade ou estranheza sobre os demais, temos apenas uma relação diferente e mais ajustada ao que somos e ao que nos pertence, para outras linhas e outros médiuns de outras vertentes esta posição pode parecer preconceituosa, que tenhamos embranquecido a Umbanda ou que nos vejamos superiores, e em muito tem razão pois conheço muitos irmãos que são assim na Escola de Mirim.

Existem também muitas casas que admitem um tipo de culto hibrido, mantendo parte do conceito Umbandista e parte dos ritos do Candomblé, em sua maioria são casas sem relação alguma umas com as outras e se formaram como fruto da mediunidade pungente de médiuns que à sua maneira interpretaram o que conheciam à luz do que suas entidades indicavam e passaram a ser chamadas cruzadas ou Umbandoblé, este novo movimento umbandista surge logo após a Tancredo formar seu culto e se aproveitando da força que a Umbanda mostrava em meados do século XX se denominaram umbandistas. Mesmo estes que muitas vezes são criticados como sendo algo sem legitimidade para se dizer umbandistas ou candomblecistas, nesta visão do movimento Umbandista são legitimados.

Antes de se intitular como puros, verdadeiros ou autênticos devemos postular se realmente somos puros, verdadeiros e autênticos em relação aos nossos próprios fazeres e nossa própria ética,, deixando para o outro o que não nos compete.

Como dizia o Caboclo Mirim: " viva a indiferença construtiva da própria existência ..."

Texto escrito pelo Sr. Edgar Neto.
Imagem: Caboclo Ventania e Caboclo Mirim

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